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Com a reestruturação das freguesias forçada pela interversão da Comunidade Europeia no resgate a Portugal, a Freguesia de Zedes está neste momento numa fase bastante complicada da sua existência. Qual será o seu futuro?
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Zedes
Escrito por Aníbal Gonçalves   
Quinta, 15 Março 2012 19:52

Nas fronteiras da serra da Reborosa, ali jaz, desde a sua antiquíssima origem, o lugar de Zedes das mil fontes. A ouvir o murmurar das águas mouriscas no soluço de dois ribeiros que se abraçam na confluência do Frarigo baptizado pelos godos. Sonolenta e digna a espreguiçar-se no logradouro do Prado, a fiar na roca do tempo que por ali parece ter adormecido.

 

Se é certo que o homem tem de viver com o corpo e a alma que lhe calharam por sorte, o troglodita, que às feras arrebatou a gruta, talhou ali, para si e para a sua tribo errante, a sua sorte, sem tempo para decidir o que havia de ser feito. A outros a história havia de marcar melhor encontro. E ainda muito antes que o lugar se tornasse «vigairaria de outrora, hoje simples encomendação amovÍvel», durante séculos, muita água do Frarigo correu, que rega e moi.

Nos olhos verdes de lameiros se mira e remira, produzindo centeio, batata, castanha e algum vinho.

Tem seu nome de uma dama mourisca Zaida ou Zeide que significa «aumentadora», radical do verbo «zada», segundo Fr. João de Sousa no Dicionário da Língua Arábica. Outros, porém, se inclinam no sentido de que este lugar, sempre de origem toponímica sarracena, provem do termo Zenetes ou Zaidi, nome de uma tribo africana.

E na turbulência académica que os pacientes sábios da linguística vêm travando, há quem diga que já em 976, em documentos coevos, aparece o nome de um sacerdote Zeide.

Outros paleógrafos nos dizem que no reinado de D. Bermudo II, no ano de 995, se lavrou um documento (Dissertações Cronológicas de João Pedro Ribeiro - Tomo I, pag. 202) em que figuram como intervenientes Ziti, Zydi e Zidi, sendo este quem lavrou o documento, que pertence ao arquivo do mosteiro de Vairão.

Seja como seja, a lição a extrair é a de que no século X era na Península Ibérica muito frequente o topónimo de Ziti ou Zide e daí o baptismo de Zedes até então sem nome e fora das lucubrações do homem rupestre que ali deixou marcas indeléveis.

Adora a S. Gonçalo sem que tivesse encontrado matrimónio com o progresso. Em 1706 era vigararia apresentada pelo reitor de Marzagão e a esse tempo com 60 fogos. Em 1768, Zedes mudava de vigairaria, passando a ser da apresentação do reitor de Ansiães, pagando ao padre a míngua de 60$000 reis de côngrua e um modesto pé de altar (Pinho Leal, obra citada).

Possui a matriz bem conservada e mais algumas capelas: de Santa Margarida, de S. Roque e uma abobada e brasonada, pertencente ao solar da nobre família Dá Mesquita e Meneses, senhora da Casa das Selores. Na sucessão dos vínculos e morgadios, este solar de Zedes foi de José Maria de Morais Dá Mesquita, doutor em direito pela Universidade de Coimbra, e presidente da câmara municipal de Carrazeda, falecido em Dezembro de 1896, avô de Jerónimo Barbosa de Abreu e Lima, que foi também presidente da mesma câmara com obra meritória e publicamente reconhecida e em sinal de gratidão dos povos carrazedenses através do descerramento de um medalhão em bronze na fachada do edifício camarário - tudo isto antes da Revolução dos Cravos e, por retaliação indigna, apeado, mas hoje novamente fixado no mesmo local, por vontade popular.

Daqui foi um tal Manuel Inácio, famoso moedeiro falso, morador que foi no Monte da Pena, em Vilar, da cidade do Porto.

Cumprindo pena nas Cadeias da Relação do Porto, ali aprendeu a arte de fazer moeda, pelo ano de 1887. Ficou célebre nos anais do foro portuense o processo do moedeiro falso que no comissariado da polícia fez revelações atinentes ao crime que lhe foi imputado e pelo qual foi punido.

Ali, declarou que fora a casa de um Manuel dos Santos, no monte da Lapa, em Maio de 1886 com o qual fabricou moeda falsa de 500 réis, feitas em forma de gesso. Antes de ser preso, o Manuel Inácio, ao ausentar-se do Porto, foi esconder num silvado, próximo do Palácio de Cristal, algumas colheres e barras de estanho. No regresso, ali as encontrou e levou para sua casa.

Aqui deixamos aos bons moradores de Zedes esta efeméride que em nada afecta a sua proverbial honradez e confirma a regra de que entre o trigo nasce algum joio.

Mas o mais genuino padrão de Zedes salvo milagrosamente do vandalismo que ainda hoje se pratica, com impunidade histórica, é a arca funerária de origem megalítica - a famosa Casa da Moura. A trezentos metros a sudeste do lugar, à beira do caminho vicinal, a majestade solene da arte rupestre, mais uma vez por estas bandas, desafia os tempos e o homem contemporâneo. Jóia rara, é uma das nove estações pictóricas que existem em Portugal. Formada por uma câmara sustentada por nove esteios graníticos de dois metros de altura e por uma galeria, esta necrópole, tal como a da Pala da Moura, em Vilarinho da Castanheira, desde o início do terceiro milénio, que nos assustam e nos surpreendem como manifestação espiritual do nosso antepassado, o homem da pré-história.

Ao longo dos séculos, estes sombreiros de pedra têm servido de abrigo ao ceifeiro nas trovoadas, de leito e tecto na sua hora da sesta ou de abrigo ao pastor e para o seu gado acarrar.

Despedindo-se de S. Gonçalo, os de Zedes voltaram-se, como os de Linhares, para Santa Bárbara, com festividade em fins de Julho. A cristandade divinizou esta donzela da Bitínia a quem foram arrancados os peitos, dilacerado o corpo com unhas de ferro e degolada pelo seu próprio pai que, após o suplício, caiu fulminado por um raio, ficando seu corpo em cinzas.

E foi assim; e continua a ser assim que, no ribombar do trovão, a que os celtas respondiam lançando setas para o ar, os povos em pânico e alucinados, ora cobertos com a ramagem do trovisco, ora lançando para os telhados das suas casas a «amêndoa do trovão» ou a amêndoa parida, soluçam a meia voz
«Santa Bárbara bendita
Que no Céu estás escrita
Em papel e água-benta
Livrai-nos desta tormenta»


E foi também assim que Santa Bárbara passou a advogada contra os raios e coriscos e a padroeira dos artilheiros.

 

José Aguilar, "Carrazeda de Ansiães e o seu termo", 1980.

 
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O que pensa de Zedes nos meses de Verão?
 
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