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Sombras da Cabreira PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Aníbal Gonçalves   
Quarta, 11 Abril 2007 00:00

No dia 11 de Abril, eu e o meu cunhado Zé, residente na lindíssima cidade de Aix-les-Bains, na Savoie, em França, rodeada de altas montanhas, vales e lagos, fomos fazer um passeio no humilde Vale da Cabreira. À partida senti-me apreensivo. Que belezas lhe posso mostrar nestas encostas tão agreste?

Deixámos o carro na entrada do caminho que parte da estrada dos Folgares e que desce até à Quinta do Pobre. O dia estava nublado, podia chover a qualquer momento mas isso não nos assustou muito.
O objectivo era descer o vale até à Quinta do Pobre e havia duas formas de o fazer: pelo caminho ou saltando de fraga em fraga, serpenteando entre as rochas, descendo aos regatos e subindo aos amontoados de rochas graníticas que parecem ter sido ali colocadas pela mão de um artista pós-moderno.

Decidi impressionar o meu acompanhante e levei-o a ver a bonita cruz da Ordem de Malta gravada num enorme bloco de granito. Vendo que surtiu algum efeito, contei que esta marca nas rochas separava os territórios pertencentes à Ordem de Malta, a que pertencia Freixiel, possivelmente desde a fundação da nacionalidade. No foral dado a Freixiel por D. Sancho Fernandes no séc. XII pode ler-se que o termo de Freixiel se podia encontrar da “Alagria de Zedes e daí à cruz água vertente e daí às Lages de Cima de Val Torno”. Folgares ainda hoje pertence à freguesia de Freixiel, Pereiros pertenceu ao seu concelho bem como Mogo de Malta. Curiosamente, Mogo de Malta, bem diferente de Mogo de Ansiães, que certamente pertencia a Anciães (castelo na Lavandeira).

Seguimos vale abaixo admirando as obras da natureza, mas também as marcas do homem. E são abundantes estas marcas. Desde as mais rudimentares palas, debaixo das fragas, tapadas na sua entrada para protecção do homem, passando por construções para guardar os animais dos dentes cruéis dos lobos, até outras construções, mais enigmáticas, mas demonstrativas que a espécie humana sempre por ali andou. Não ia ali esporadicamente, vivia entre aquelas rochas talvez refugiando-se do vale, para fugirem a algum senhorio mais cruel, ou algum invasor mais bárbaro.
Não é difícil circular aqui. Os incêndios quase anuais destroem a vegetação, havendo apenas meia dúzia de pinheiros a par da vegetação mais rasteira de fetos, giestas, carqueja e arçãs. Até as silvas têm alguma dificuldade em sobreviver por aqui!

 


À medida que descíamos, o Pé de Cabrito ia crescendo, destacando-se em perfil contra o céu! Parece um vigia que vela por todo o Vale da Cabreira até além da aldeia de Freixiel, onde na encosta da montanha, os povos antigos, deixaram um grande castro.
A Primavera também reina nestas encostas rochosas! A delicadeza das pequenas flores é ainda mais surpreendente, contrastando com a rudeza do local.
Aproximámo-nos da Quinta do Pobre por Norte, mesmo onde era feita a captação da água, que depois era encaminhada, por gravidade, para as diferentes pequenas casas.

As sombras cobriam já metade do vale. Visitámos cada uma das casas, questionando-nos de como seria a vida naquele local. Tenho ainda na lembrança o último habitante. Nesta época do ano, feliz, a regar as batatas com uma pequena mangueira. Infelizmente esse habitante faleceu e levou com ele todas as experiências de quase um século de vida, de muitas horas de solidão que o levavam a falar quase compulsivamente quando era visitado por alguém. Mas disso falarei numa outra altura.
As batatas já rasgaram a terra que foi recentemente amanhada. Em volta das casas, verdes laranjeiras e tangerineiras, oferecem os seus frutos, doces, vistosos, como um jardim paradisíaco, num vale de rochas.
Olhando vale acima, o Pé de Cabrito já não tinha sol, estava na hora de regressar. Mais uma vez optámos por seguir pela crista das encostas, acelerando o passo com receio da noite.
Foi ao subir, vendo a silhueta das rochas recortadas contra o céu que tive a ideia de escrever este texto e de lhe chamar “Sombras do Vale da Cabreira”. Sombras de luz, sombras do passado, sombras de um futuro incerto. Mas, mesmo no mais profundo esquecimento, a natureza luta, renova-se, mantém-se viva.